segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A vida na Corte

Capítulo 1

A vida na Corte

Lembranças na cidade do Rio de Janeiro

Haud est virile terga fortunae dare

Sêneca, Édipo - Ato I [1]

Corre o ano de 1864, ano bissexto. Os últimos meses trouxeram acontecimentos inesperados e trágicos. Quando o mundo em volta se aquieta, os pensamentos me invadem a mente e provocam as noites sem dormir. São três horas da madrugada e permaneço insone. Estou completamente só e a lembrança do minuano corta o meu coração. Do lado de fora, na cidade, a luz difusa se mistura a uma suave neblina. Rio de Janeiro, a Corte, o lugar ideal para reconstruir minha vida. Após a morte de minha primeira esposa, Ermelinda, em breve estarei me casando.

De fevereiro para julho de 1864 tudo mudou. Viemos — minha esposa Ermelinda, as crianças e eu — passar as férias no Rio de Janeiro e assistir ao carnaval. As atividades nos haviam mantido por demasiado tempo distantes dos familiares que vivem por aqui. Rever a cidade, os amigos, e olhar de perto os negócios foi uma experiência intensa: o cenário das ruas, a natureza, os sons e as gentes. Em Rio Grande, onde vivemos, o horizonte é amplo; o sol se põe sobre uma linha sem montanhas e muito, muito distante. O clima e os ventos, que sopram constantemente, criam um ambiente semelhante ao da cidade do Porto, de onde se lançou meu pai à aventura na América, direto para o Brasil. Trazia consigo os sentimentos de liberdade, esperança e ousadia, que me deixou como maiores heranças. Embora nas cercanias do porto rio-grandense haja construções de inspiração portuguesa, erguidas ao longo dos anos, os costumes se mesclam com os espanhóis, marcados pelos vizinhos do Estado Oriental e da Argentina.

O carnaval na Corte é uma festa popular que cresceu recentemente. As vias públicas são tomadas por uma alegria que ultrapassa as cores e se estampa nos rostos e nos movimentos das pessoas. Os préstitos e o Zé Pereira, a correr o centro com seus bombos e tambores, contagiam os que encontram pelo caminho. Os festejos foram magníficos, as ruas estavam enfeitadas, os versos e dísticos das bandeirolas chistosos, os bailes concorridos, sobretudo o do Teatro Lírico. Nos bailes de mascarados, as valsas, os xotes, as habaneras e as polcas parecem passar maior animação do que ao serem tocadas nos salões, durante o ano todo. Criou-se até um Congresso das Sumidades Carnavalescas, reunindo gente de alto coturno. Entre os seus fundadores está o jornalista José de Alencar. Um grupo que chama a atenção é o dos Zuavos Carnavalescos, nome inspirado nos famosos guerreiros zuavos surgidos na guerra de conquista da Argélia.

Passamos bons dias até retornarmos primeiro a Pelotas — cidade em que nasci — e depois a Rio Grande, onde a saúde de minha esposa Ermelinda ficou frágil. A doença latente se manifestou, tendo contribuído para tanto o excesso feito durante os folguedos do carnaval, entre os quais noites despertas e ceias à madrugada, com a fadiga do dia seguinte. As chuvas que nos surpreenderam no retorno a casa não teriam sido suficientes para justificar o tempo em que esteve acamada. A situação agravou-se com o clima do Sul. Os médicos disseram-me que ela estava sem resistência e que temiam por sua recuperação. Fiquei todo o tempo ao seu lado, a cercamos de cuidados, mas ela morreu no mês de abril de 1864, em Rio Grande, vítima de tuberculose.

As crianças, Ermelinda, Georgina e Jorge, passaram a viver com os avós. Quando terminem as aulas e eu tenha outra esposa, virão para o Rio de Janeiro. Já encontrei bons colégios para as meninas. O menino tem apenas 3 anos, ficará em casa com a madrasta. Meus filhos são o motivo pelo qual me decidi casar em tempo tão curto. Adelaide, uma amiga da família, surpreendeu-se com a proposta, mas aceitou-a, já que nossa convivência na infância criou laços afetivos fortes, que ora tomam outro rumo.

Amanhece. Abro as janelas para encontrar a paisagem e acordar meus sentidos, trazendo da natureza a energia necessária para mais um dia. Assim renovo minha alma, ao preencher meus pensamentos com a vida presente que me chama e exige ação. Sou um homem do meu tempo, envolvido nos negócios da família como guarda-livros, função que também me transformou em um servidor do Império. Participo dos círculos da maçonaria, que congrega homens do comércio, alguns ilustres e destacados como o Irineu Evangelista de Souza, o Mauá. Já batem as oito da manhã, hora de sair de casa. Sigo o caminho costumeiro até o centro. Hoje encontrei Antônio, meu irmão, que há semanas não via. Eu pretendia fazer-lhe uma visita à fazenda onde vive parte de seu tempo, em Mar de Espanha, mas as obrigações me detiveram. As atividades de Antônio, ligadas ao comércio do café, o fazem empreender longas viagens e, por vezes, passar um mês fora da Corte. Quanto valor tem a proximidade com os familiares daqui e com a cidade carioca! No tempo em que a necessidade me fez retornar ao Rio Grande, por um período considerável, confesso ter estranhado. A vida cotidiana difere bastante. Além dos açorianos, compatriotas de Portugal e distintos de nós, do Porto, muitos povos vieram dar ao extremo Sul do Brasil. A influência desses acontece de maneira localizada. Há lugares povoados por alemães; negros e índios misturam-se na parcela mais simples da população, desafiando a superioridade social dos brancos. Mas o que mais se experimenta é um jeito de ser gaúcho único, fundado sobre o transitar frequente nas terras fronteiriças entre o Brasil, o Uruguai, a Argentina e o Paraguai.

Estamos no período mais fresco do ano. Na cidade do Rio de Janeiro seria exagero falar em inverno, embora nas serras próximas a temperatura se iguale às encontradas no Sul. Mas o mate quente me acompanha ainda hoje, apesar do clima. E foi numa tarde, quando eu mateava — como se diz lá no Rio Grande —, que ouvi uma batida na porta de casa e uma voz grave me chamou:

— Jorge, vem cá fora, pois te traigo um mimo dos pampas.

Reconheci o acento e lembrei-me de meu companheiro de cavalgadas, nascido na cidade de Bagé. Francisco é um homem de sorriso largo e olhos brilhantes.

— Entre amigo! Por certo que vens tomar um mate comigo, como nos velhos tempos.

Enquanto tomávamos o chimarrão ele me contou da tensão nas fronteiras por conta dos vizinhos castelhanos. Vinha em missão para levar orientações diretamente do Ministério dos Negócios da Guerra. Havia se tornado militar e preparava-se para os conflitos que estavam se anunciando há alguns anos. Ficaria na cidade poucos dias, o suficiente para receber as ordens devidas e conhecer a Corte, de que tanto eu lhe havia falado.

Em 1861 não havia ocorrências notáveis na fronteira Sul, mas os acontecimentos na Confederação Argentina e Buenos Aires preocupavam as autoridades brasileiras — previam a possibilidade de serem chamadas a proteger os brasileiros residentes naqueles territórios. As autoridades julgavam prudente montar polícias com mais vigilância e procurar conhecer todos os movimentos dos vizinhos do Estado Oriental, Corrientes e Paraguai. A comissão encarregada da verificação dos limites tem feito seus trabalhos e era dela que participava meu amigo. Além das movimentações na fronteira, havia um fato novo: a presença dos anarquistas, que apregoavam suas ideias e distribuíam impressos. Desde a criação da Colônia de Sacramento, encravada no Prata e cercada de espanhóis por todos os lados, a disputa entre os povos oriundos e descendentes dos dois países ponteia o cotidiano da Região. A mistura de culturas nativas com os espanhóis começou à época das Missões Jesuíticas, expandidas a partir do território do Paraguai, criando no local um quadro distinto do resto das terras brasileiras. A distância da Corte exigiu que as decisões fossem tomadas de forma independente, do contrário demorariam a ser implementadas. Motivados pelo abandono do Império — cuja demora em atender aos reclamos dos homens da elite local, que amargava a concorrência dos argentinos na produção do charque e a obrigatoriedade dos impostos pagos sem contrapartida da monarquia —, os brasileiros gaúchos chegaram a ponto de querer uma unidade política própria, com a Revolução Farroupilha, que se estendeu de 1835 a 1845.

Paco — assim carinhosamente lhe chamavam os familiares de origem espanhola —, é um brasileiro identificado com a alma sulista, viril e plena do sentimento de identidade; alma de um povo que desconhece as fronteiras políticas e luta pela liberdade. Uma liberdade sempre ameaçada pelas pressões internacionais sobre os governos dos países, recém saídos da condição de colônias. Frente às ameaças será necessário reagir e, certamente, estamos prestes a entrar em outra Guerra cujo contorno se define. No meio de tantos avanços tecnológicos e sociais, enfrentamos a crueza de solucionar os conflitos pelas armas; e mortes, muitas mortes. Haverá novos caminhos?

Convidei o amigo para hospedar-se em minha residência, desta maneira teríamos mais tempo para prosear. Ele aceitou. Em seguida fomos ao centro da cidade, passando no armazém para deixar o livro da escrita. Continuamos o percurso até o hotel onde Paco deixara suas malas. Lá tomamos um refresco de limão e acertamos nosso encontro para o final da tarde. Após um bom banho e roupas adequadas, passaríamos na casa de Adelaide, à rua do Imperador.

Adelaide estava especialmente bonita naquele dia. Acostumado a vê-la como amiga, habituava-me a outro olhar sobre a mulher jovem, de cabelos e olhos brilhantes, cujo sorriso carregava uma dose de timidez, embora nossa proximidade venha do tempo de crianças. O recato é da natureza feminina e parece aumentar quando se apresenta um homem estranho, na ocasião o Francisco. Foi assim que se manifestou minha noiva tão logo nos olhamos. Paco gentilmente lhe ofereceu o braço para que alcançasse o assento do coche que nos levaria para um pequeno passeio pelas ruas centrais e, logo, à porta do Teatro São Pedro de Alcântara. Ela acenou para os pais, vigilantemente sentados no balcão da sala.

As funções teatrais me encantam e a praça da Constituição era uma boa entrada nos costumes da Corte. Encontramos o governador da província, João Crispiniano Soares, a quem apresentei meu amigo e convidei para, finda a apresentação artística, tomarmos um bom vinho trazido de Portugal. Paco tinha um jeito simples, apesar de sua boa posição construída sobre parte da herança de seus antepassados. A família lidava também com o curtume, em Pelotas.

No dia seguinte acompanhei-o em sua visita ao Arsenal de Guerra, que fica na ponta do calabouço. Aproveitei para conhecer o local, parte da paisagem das minhas idas e vindas por caminhos diversos entre o centro e a atual residência na Glória. Caminhar é um hábito que me ajuda a organizar a mente. Sinto-me bem pensando em movimento e distraindo-me com o que encontro pelo percurso. Deixei-o por lá e dirigi-me à rua da Conceição, para tratar da compra de alguns móveis escolhidos por Adelaide. A casa está mobiliada parcialmente e necessita acolher os novos moradores. Uma mesa de jantar com oito a dez assentos, camas e roupeiros para as crianças me seriam suficientes. Adelaide quer alguns detalhes femininos, além do móvel de toucador que ela trará de sua casa, pois está acostumada a ele. Terminada essa tarefa, finalmente, fui ao Trapiche Mauá, antes de seguir para o armazém.

No Trapiche Mauá, fico sabendo das chegadas dos vapores, remessas e preços das mercadorias. Carregamentos de charque e de farinhas gaúchos, ao lado de produtos ingleses, se avolumam na beira do caminho. Além de informações importantes, encontro os conterrâneos de meu pai, aguardando as embarcações. Boa parte deles veio para o Brasil logo após a Revolução Constitucionalista acontecida na cidade do Porto, atraídos pelas medidas de

liberdade de comércio e pelo reconhecimento por Portugal, em 1825, do nosso país como nação independente. Em 1834, foi inaugurada a nova praça do Comércio. E fundada a Sociedade dos Assinantes da Praça, ao mesmo tempo em que, em Portugal, criava-se a Sociedade Mercantil Lisboense. Enquanto os negros fazem seu trabalho no Trapiche, os velhos comerciantes relatam suas experiências e de seus pais aos mais novos, ensinando-nos a rotina e os recursos precisos à atividade. Os ensinamentos vão além da vida do comércio, porque expõem a visão sobre o dia-a-dia. Sorriem, falam em voz alta, sussurram, numa música viva e vibrante, apesar dos cabelos embran- quecidos. Há os que contam mais de 60 anos.

Muita coisa mudou para nós, homens de negócios mais jovens. Desde a aprovação do Código Comercial, em 1850, que regulamentou o comércio geral e o marítimo, bem como as quebras e falências, existe o Tribunal de Comércio. Todas as leis e processos passaram a organizar a atividade dos comerciantes de outra forma. O Código regulamentou, também, a profissão de banqueiro e as operações bancárias; as condições dos contratos e obrigações mercantis; como hipotecas e penhor mercantil; a organização das companhias de comércio, das sociedades anônimas e das sociedades por comanditas. A partir dele, o Estado imperial tem o poder de autorizar a instalação das sociedades anônimas, comerciais e civis. E a lei de 1862 veio aumentar a presença do Estado no setor do Comércio.

Sigo caminhando até chegar ao nosso armazém de Molhados, na Rua do Rosário 54, esquina com a rua Direita. Após saudar os presentes e trocar algumas palavras, dirijo-me ao segundo piso onde os livros me aguardam. Ali passo boa parte das horas diariamente. Uma vez na semana saio de lá para reunir-me com os irmãos da maçonaria. Fui chamado a discursar, como membro que sou da Ordem do Commércio, o que muito me emocionou. Aos 30 anos e no momento que atravesso em minha vida pessoal, essa honraria tem especial significado. É a primeira vez que manifesto tão claramente as ideias que tenho sobre a maçonaria e nossa realidade no Brasil. Sou um homem educado para falar quando me é solicitado.

À GL\ do cr \ ARC \ do Un \

Aos meus CC\ RR \II do Or \

do Brás ao VAL \ dos Beneditinos


SAÚDE FRATERNIDADE E FORTALEZA D' ÂNIMO

De veniam scriptis, quorum non gloria
nobis causa, sed utilitas, officiunque fruit
OVÍDIO

RR \ MM \ EE \ II \

Depois dos grandes abalos e contrariedades, que têm agitado a Maçonaria brasileira nestes últimos tempos, que deram lugar à cisão e separação entre os membros do GR\Or do Bras\, e à fundação deste novo Temp\ ao Val dos Beneditinos depois dos receios que esses acontecimentos fizeram nascer pela gloriosa conservação de nossa santa filantrópica associação, ao ato solene de posse de uma nova administração, à qual deve ser incumbida a árdua e meritória tarefa de velar pela segurança e progresso desta instituição, e pela vanguarda dos benefícios que ela promete a todas as sociedades humanas, deve ser considerado um dia de júbilo e esperanças para todos os da Verdadeira luz, e especialmente para aqueles que se acham ligados a este Gr\Or\, como justo motivo de congratulação entre todos os nossos II\, que com sincera dedicação e amor do bem tomam a peito sua pureza e regeneração.

Como órgão desta associação, como guarda da lei fiscal de sua execução, por isto que quisestes ter a bondade de arrancar-me de minha obscuridade para elevar-me à nobre posição de orador fazendo parte de nova administração, à qual confiais hoje os destinos do novo Temp\, sou um dos mais sinceros interessados no seu brilho e esplendor, e dos que protestam empregar os maiores esforços para que isto se consiga. E como tal, RR\MM\ e II\, peço-vos licença para também considerar-me nesta ocasião um dos mais competentes para dirigir-vos essas congratulações de que vos falo, e que efetivamente vos faço com a mais viva fé e cordialidade.

Descupai desde já se o acanhamento de minhas faculdades não me permite trilhar a senda brilhante que deixou meu ilustre antecessor neste lugar, e, no desempenho de minhas funções desculpais se meus esforços e bons desejos para cumpri-las, não forem correspondidos pela grandeza dos atos.

A tempestade que por algum tempo passou sobre as cúpulas do Temp\ do Gr\ Or\ do Brás\, e que ameaçava quase submergir a santa instituição da Maçonaria entre nós, RR\.MM\ e II parece haver já serenado dando lugar à reflexão e calma dos espíritos. E conquanto tivesse trazido resultado a separação e dissidência de II\ ao longo do tempo, unidos
no mesmo pensamento e na prática do bem, é sempre certo que foi atenuado o escândalo de que íamos sendo origem perante o público, e que o sagrado depósito da glória e da virtude maçônica foi salvo, e veio refugiar-se neste Gr
\ Or\ ao Val \ dos Beneditinos, a que temos a honra de pertencer. Eu vos felicito pelo heroísmo e retidão, com que procedestes em todas estas lamentáveis ocorrências. Infelizes daqueles que, recebendo em suas mãos plena e inteira a arca santa desta instituição, cheia de vigor, e dispondo de grandes faculdades para poder preencher em larga escala a missão protetora e beneficente que a Maçonaria exerce no meio das sociedades humanas, a deixam mutilada e vacilante em seus destinos; e senão lhe dilaceraram o seio, foi talvez porque não puderam, ou porque o Sup\Arch\ do Um\, que vela sempre por aqueles

que querem o bem, impediu e evitou o progresso e o êxito do Mal! Ele continuará a velar pelos humildes instrumentos de sua suprema vontade, que sois vós, RR \MM\ e II, que pertenceis hoje ao Gr\ Or\ do Brás\ ao Val dos Beneditinos.

Ele nos inspirará também, o Sup\ Arch\do Un\ os meios de irmos dando cada vez mais brilho e mais utilidade à existência da Ordem Maçônica, e a há de ir tirando da obscuridade e insuficiência, em que desde algum tempo tem vegetado. Não falo somente do que se tem passado entre nós, refiro-me também ao que se observa entre os povos irmãos de terra estrangeira em todos os GGr\OOr\ do mundo onde vive e celebra suas funções a instituição da Maçonaria. Já houve tempo, e tempos felizes foram estes! , em que os grandes poderes da terra, os reformadores, os legisladores vinham submissos e confiados pedir inspirações salutares à Maçonaria, quando tratavam de alguma grande empresa ou reforma que interessasse à humanidade; e as recebiam dos seus legítimos órgãos, e as aceitavam e obedeciam, porque elas eram sempre ditadas pelo santo amor dos povos, e pelo desejo de outorgar-lhes a maior soma possível de felicidade, rodeando-os de garantias sobre as quais ela mesma vigiava. É que a antigüidade compreendia melhor valor e préstimo da nossa nobre instituição, ou é que esta então compreendia e praticava melhor os seus importantes deveres, a sua transcendente missão sobre a terra. Seja como for, RR ... MM... e II, a verdade é que todas as grandes conquistas que o espírito humano tem feito, e todas aquelas que têm alcançado a liberdade e segurança dos direitos dos povos modernos, têm sido, senão favorecidas sob a influência e auspícios da Maçonaria, a cujo poder e vontade era difícil resistir, por isso que eram sempre fundados na razão e na justiça.

Mas com o correr dos tempos esta influência benéfica que a maçonaria exercia, e que estava quase no direito de exercer, sobre as reformas políticas que concorriam para assegurar a felicidade dos povos, se foi pouco a pouco enfraquecendo, e sobreveio a apatia e o esquecimento de consultar e respeitar suas inspirações sempre ditadas pelo bem geral; e vemos que tem ela hoje ficado unicamente reduzida à missão evangélica da beneficência, caridade e fraternidade. Não se entenda, porém, que com isso queremos dizer que seja menos meritória e menos digna esta sua missão atual, não: o que queremos dizer é que é ela menos ampla, menos filantrópica do que devia ser, e do que podia à vista das grandes faculdades e recursos de que dispõe a Ordem Maçônica.

RR\ MM\ E\ II, é minha opinião que, no interesse geral da humanidade e do aperfeiçoamento das sociedades civilizadas, a Maçonaria deve empregar todos os meios de recuperar as sua antiga influência política e social, senão perdida, ou esquecida e abandonada; e que, uma vez de posse dela, deve procurar exercê-la do modo mais salutar e mais benéfico, que é lícito esperar dos RR\MM\E\ II, de que se compõe esta nobre associação. E se mesmo nos países do velho mundo, onde a recuperação dessa influência nos parece ser uma grande necessidade social, por duplicada razão, entendemos que ela o é no nosso país, onde a sociedade política não está ainda regularmente constituída, ou se está, é sobre base falsa, instável e injus-

ta, pois vemos que os brasileiros, com dor o repetimos, nascem ainda escravos no solo livre de sua pátria! Bastará recordar-vos esta triste anomalia social, para que compreendamos todos o quanto é necessário que uma grande instituição, como é a Maçonaria, não se conserve inerte e indiferente à sorte da sociedade brasileira; e procure antes impor a sua influência para que ela se regularize e constitua sobre bases mais seguras e mais justas, mais conformes com os direitos civis, e até com a moral cristã! E me é grato poder confessar neste momento que os esforços que houvéssemos de fazer neste sentido se achariam hoje mais do que nunca sob os mais favoráveis auspícios, quando vemos a testa da nossa ao Val \ dos beneditinos o nosso Sap \ \Gr\M\Com Joaquim Saldanha Marinho, cuja ilustração e talento, cuja posição política são um penhor do sucesso para todas as nossas justas pretensões; quando vemos que é ele coadjuvado pelos nossos III\Gr\Adj. Joaquim José Ignácio e Gr\Secrt\.Ger\ Tito Franco D' Almeida, cujas virtudes e dedicação são reconhecidas por todos; e quando ainda, para dar maior realce a nossa festa hoje, a Providência permitiu-nos gozar da estimável presença do nosso Resp\Ir\ João Severino da Silva, campeão esforçado dos bons princípios e dos nobres sentimentos maçônicos, que acaba de chegar a esta cidade de uma viagem feita à Europa em serviço desta mesma associação, e que deve ser considerado igualmente como uma garantia do progresso e esplendor dela.

RR\ MM\ e II haveis de permitir-me que ponha aqui termo a estas poucas palavras de congratulação e fraternidade, que desejava dizer-vos nesta ocasião solene; mas antes de o fazer consentireis que eu cumpra também o grato dever de dirigir as mais cordiais felicitações aos RR\MM\ das deputações de todas as Off\ que se dignaram vir hoje honrar-nos com a sua presença, por parte dos Centros de Luz Maçônica a que pertencem; lisonjeando-me de que eles se acharão de acordo com as verdades que acabo de enunciar como órgão desta associação, e que as divulgarão entre os seus RR\III\

A todos os RR\MMM\ e II da Ordem Maçônica, presentes e ausentes, a benção do Sup\Arch\do Un\, e o ósculo da fraternidade

Disse.

JORGE LOPES DA COSTA MOREIRA, 30
Orad...da Aug...e Resp...Off... Cap... COMMMERCIO

Transformações acontecem no mundo e no País. As relações comerciais com a Inglaterra pioraram, depois da questão Christie[2]. Louvo a atitude do Imperador que saiu às ruas para impedir os desmandos dos ingleses a fechar nosso porto. O Império cortou as relações diplomáticas com a Inglaterra. Este incidente é um sinal a ser considerado.

Muitas têm sido as dificuldades destes anos em nossa América e as influências da Europa tomam lugar em todos os campos. Inglaterra, França e Alemanha disputam o poder no campo dos avanços tecnológicos. Os dois primeiros países — colonizadores por tradição — vêm se mostrando mais agressivos e os EUA, embora faça parte do Novo Mundo, tem adotado uma postura distinta do restante dos países das Américas. Tudo se move em uma velocidade maior do que no passado e as comunicações feitas pelo telégrafo facilitam os negócios. Nós, herdeiros de Espanha e Portugal, ainda somos lentos. No caso do Brasil, estamos comprometidos com uma dívida iniciada na nossa Independência, em 1822, quando pagamos com os cofres nacionais as faturas do Reino de Portugal com a Inglaterra.

No Rio de Janeiro, graças ao Imperador que traz as novidades tão logo surgem na Europa, comungamos do desejo de progresso e de algumas invenções importantes. Temos, por iniciativa nossa, os comerciantes, um telégrafo que avisa a entrada, pelo litoral de Santa Cruz, dos navios que se dirigem à alfândega, no centro da cidade. E outras modernidades nos chegam, não só nas modas que podem ser vistas nas vitrines da rua do Ouvidor.

Pedi a um amigo, que anda inteirado dos usos, sua preciosa ajuda na escolha do traje para o casamento. O comércio da rua do Ouvidor conta com uma dúzia de vitrines de vidro e, segundo dizem, nada ficam a dever ao das ruas da Europa. As mais belas lojas pertencem aos franceses; há alfaiates, chapeleiros, sapateiros, armarinheiros, modistas, seleiros e fabricantes de guarda-chuvas. O casamento será simples em casa de Adelaide, pois todos guardamos respeito pela morte ainda recente de Ermelinda. Para a cerimônia de bodas convidei poucos amigos. Entre eles o Irineu que está na Europa, a cuidar dos negócios: seus negócios, mas que trouxeram ao Império um progresso inquestionável. Estarão presentes certamente os amigos do Real Gabinete Português de Leitura, com os quais partilho horas de conversas e os excelentes livros. Aprendi muito com as conversas, tanto quanto com os livros.

Hoje faço na Cúria o depoimento que possibilitará a habilitação matrimonial. Caso-me no dia 30 de Julho de 1864, dia de meu aniversário. Mandei publicar no Jornal do Comércio uma nota, comunicando a todos nossa união. Um pequeno verso de bodas sairá no Diário do Rio de Janeiro. Na casa de Adelaide os preparativos foram feitos de maneira simples; uma mesa de doces, refrescos e vinhos para após o jantar, servido pelos criados da casa — em trajes de gala. Um amigo de meu pai presenteou-me o jantar ao gosto português mais tradicional, que será feito pelos cozinheiros de seu restaurante. Seremos 20 adultos à mesa. Uma recepção bem diferente de meu primeiro casamento, aos 18 anos.

Ando apressado pelos becos do centro, passando o da Cancela. Ao dirigir-me ao escritório de tradução, encontro o Dr. Reinaldo Moniz Freire, pai de minha noiva, carregando um pacote de impressos.

— Que bom lhe encontrar. Pode levar este pacote consigo? — disse ele.

— É claro. Deixarei o pacote no escritório de tradução, pois levo comigo um trabalho que fiz sobre um contrato mercantil.

— Estou indo para o cais, a ver um cliente. Logo mais, os encontrarei em casa para acertar os últimos detalhes da cerimônia. Adelaide já conversou com o padre. Está tudo acertado — acrescentou.

Para mim é um alívio não ter que explicar ao padre, mais uma vez, que sou maçom, mas que não renego Jesus Cristo e outras coisas que, embora existam padres na maçonaria, a Igreja Católica faz questão de exigir dos laicos. Quase soa como uma intenção de nos converter.

Já que estou desobrigado à conversa com a Igreja, aproveito o tempo livre para ir ver um tílburi velho, mas elegante, pois a família vai necessitar um transporte. O anúncio, escrito em francês, garante que a patente é de Paris. Chamei ao fotógrafo Klumb, que conheci na inauguração da estrada União Indústria, para registrar nosso casamento. Estas são as últimas providências que precisava tomar.

O sol já está por se recolher e atravesso o largo do Paço, olhando a Catedral, a Igreja do Carmo e o Convento. Os sinos da Igreja de São José, situada um pouco adiante, soam às seis horas da tarde. Ao retornar a casa encontro telegramas de felicitações pelo casamento. Um bom banho, um escalda-pés, uma leitura e o sono merecido. Saber estar à véspera da cerimônia, ao invés de me deixar ansioso, me alivia. Sinto que a vida segue adiante.

Estamos reunidos à espera do padre e do juiz, e também da noiva que se adorna no andar de cima do velho sobrado. Adelaide despede-se hoje da rua do Imperador, onde viveu desde que seus pais vieram do interior da Província. Entre os amigos que acorreram à cerimônia estão muitos comerciantes da praça e alguns livreiros. O João Barros Cassal, que tem sua loja de ins- trumentos musicais na rua São Pedro, próxima do nosso antigo armazém, trouxe como presente de casamento um violão esplêndido e uma pequena harmônica. Conhece bem minha paixão por música e a importância de educar as crianças também nesse sentido. Além disto, reunir a família para cantar e ouvir modinhas e outras composições enche o ambiente de alegria.

Adelaide aparece no alto da escada e, como eu havia combinado, os músicos começam a tocar. Ela desce e vem até mim, sorrindo. É, sem dúvida, uma bela mulher: esguia, a pele alva, a boca bem marcada, cabelos longos alinhados e um quê de melancolia, próprio dos poetas. Ela escreve versos desde menina, é afeita aos livros e dona de um olhar observador e paciente, que me faz supor ter ela qualidades suficientes para enfrentar a vida ao lado de um homem sempre ocupado e já pai de três crianças por criar. Em seguida à pequena recepção, nos hospedaremos em um hotel e partiremos, no dia seguinte, para uma semana em Petrópolis.

Retornamos à Corte a tempo de acompanhar as comemorações de Nossa Senhora da Glória, ou de Assunção, no dia 15 de Agosto. Da janela de casa vemos o Outeiro, lugar escolhido pela família Imperial e, ao mesmo tempo, pelos habitantes da cidade que participam das festividades. São dias de grande movimento, com procissão, bandas de música, sons das novenas e dos fogos de artifício. Terminadas as demoradas atividades litúrgicas, às quais não costumo comparecer, acontece o baile no salão, com a presença do Imperador, enquanto as ruas continuam cheias com a gente que se dedica às serenatas.

Desde que me mudei para a rua Santo Amaro A, esquina com a rua do Catete, costumo estar em casa mais cedo. Quando vivia próximo à praça do Comércio, os dias se estendiam em conversas nos cafés e, por vezes, visitas mais alongadas ao Gabinete Português de Leitura. Nossa casa é confortável e conta com o primeiro serviço de tratamento de esgoto da América, recém inaugurado. Aproveitamos juntos o movimento da cidade e os bailes do Clube Fluminense. Adelaide também aprecia a dança e o teatro. Ontem vimos a Companhia Lírica Italiana Merciaj.

Esta manhã ela me perguntou:

— Quando virão as crianças?

Notei um ar de preocupação em seu rosto e assim soube que já estava a par do ruge-ruge sobre as tensões no Rio da Prata.

— Vou pedir à avó que as traga na próxima semana. Deverão chegar no início de setembro — respondi.

No dia 4 de setembro de 1864 estávamos Adelaide e eu aguardando no cais a chegada do vapor em que viajavam meus filhos. Senti uma emoção muito grande ao abraçá-los e beijá-los, pois havíamos nos separado desde a morte de Ermelinda. Adelaide agora os recebia não mais como amiga da família, mas como madrasta. O primeiro encontro aconteceu cerimonioso, embora ela tenha manifestado o seu carinho. No dia seguinte, saímos em direção às escolas, porém Jorge agarrou-se às minhas calças porque queria me acompanhar até o armazém. As meninas se dirigiram à rua do Ouvidor e adjacências, onde a avó e Adelaide poderiam providenciar o vestuário exigido pelos colégios, objetos para o estudo e livros. Iniciava-se uma nova etapa na vida da família, que — hoje, ao registrar estas memórias, posso revelar — seria curta.

Menos de 15 dias depois, um terremoto abalou o comércio no Rio de Janeiro. Dia 18 de setembro a praça acordou com a notícia da suspensão dos pagamentos da Casa Souto & Cia., cujo giro era enorme, sendo seu crédito equivalente apenas aos dos cofres do Banco do Brasil. A quebra veio acompanhada pela de outras casas bancárias, e de muitos homens de negócios, refletindo na sociedade tanto nas mais altas camadas quanto nas menos favorecidas.

O povo afluiu à rua Direita e à rua da Alfândega, todos corriam aos bancos e casas bancárias para salvar suas propriedades e/ou o resto de suas economias acumuladas. A crise comercial se pressentira pela fragilidade percebida na praça. Falava-se em “Pompéia Comercial”, na Semana Illustrada, publicação que assinara para prover de leituras e entretenimento a família. A publicação dizia: “economistas e financeiros apuram as penas e escrevem seus tratados, bancos e credores nomeiam seus representantes para as liquidações. O Governo nomeia também os seus fiscais”.

Entre tantas situações desastrosas havia uma notícia boa: o decreto do ministro da Justiça emancipando todos os escravos livres que até aqui se conservavam em regime de escravidão. O Imperador D. Pedro II é um monarca cujas atitudes demonstram uma natureza justa. Em 1840, libertou os escravos que herdara e, sempre que obtinha dinheiro, mandava comprar escravos e os libertava, bem como os empregava, com salário, em sua quinta de Santa Cruz. Não podia fazê-lo com os escravos da coroa, mas esses também tinham ganhos e seus filhos, escola. A notícia dos casamentos do Conde D' Eu e do Duque de Saxe — com as princesas Isabel e Leopoldina, suas futuras esposas, respectivamente — tomou a cidade: caiavam-se as casas, pintavam-se as janelas e cada qual tratava de aprimorar a sua fachada.

Enquanto isso, fatos graves aconteciam: dez a quinze mil paraguaios estavam por invadir o Estado Oriental em defesa do equilíbrio dos caudilhos; o Wassuchet, embarcação dos Estados Unidos da América do Norte, abordara o Flórida, embarcação brasileira, no porto da Bahia — as autoridades, em vez de defender a honra nacional, apesar da atitude digna do ministro da Marinha, desconsideraram o escândalo do assalto, assim como outro fato diplomático, nas águas do Prata. Nem as notícias do casório imperial; nem a temporada da

portuguesa Emília das Neves no teatro com três obras, entre elas A mulher que dita as cartas foram suficientes para dissipar o clima de apreensão.

Apesar do impulso tomado nos anos que se seguiram ao fim do tráfico de escravos, com a liberação dos capitais para empreendimentos diversos, como as fábricas, as estradas de ferro, os bancos e outras empresas, instalou-se um novo ciclo de incertezas. Após a conciliação, que levou ao ministério os antigos liberais como o José Maria da Silva Paranhos, ao lado dos con- servadores, que tinham a maioria conquistada nas eleições de 1852, inau- guraram-se as bases para um novo quadro, e liberais e conservadores continuaram participando da composição do governo até o início da década de 60. Foi quando surgiu o Partido Progressista e reacenderam-se as disputas entre os partidos. No campo da ciência e do conhecimento os avanços nos enchiam de esperança, apontando para a melhoria da sociedade, que orbitava em torno dos valores da Europa sem a base necessária tanto social quanto econômica. Havia muita ostentação e desperdício, não só entre os ricos, mas de vinténs entre todos. Ninguém se julgava pobre no país. Faltava-nos educação e deveríamos imitar os europeus também nesse aspecto.

Enquanto a Corte comemorava os casamentos das princesas e buscava recuperar o crédito, as forças brasileiras ultrapassavam as fronteiras do Estado Oriental e Montevidéu passava ao poder do General Flores. O pre- sidente Lopez, do Paraguai, estava pronto para cumprir a promessa de se colocar ao lado dos orientais.

Havia uma sucessão de protestos junto à praça do comércio, entre esses restos de carregamentos consignados e seguros de cerca de 800 navios. As bancarrotas comerciais sucediam-se umas às outras; os bancos de todos os países vacilavam em seus alicerces e não só faltava o numerário, faltava o capital que lhe punha em giro. O que gerou a “questão dos trocos”. É que esses desapareceram. Trocar dez mil réis era difícil, vinte nem pensar. O fiado tinha mais um argumento: se não há troco, se paga depois. O espectro do calote — falava-se — haveria de fazer aparecerem bilhetes de mil, dois mil e cinco mil réis em profusão, para serem trocados pelos de vinte, trinta e cinquenta mil.

As páginas dos jornais, a 2 de dezembro de 1864, cederam espaço para as saudações pelo natalício de S.M. Imperial D. Pedro II, o monarca mais popular do século e, sem dúvida, o mais digno de popularidade. Outra homenagem ia para Gonçalves Dias, príncipe dos poetas brasileiros, que aca- bava de falecer no naufrágio, na costa do Maranhão, de um navio mercante que chegava da Europa. A Câmara Municipal votou que se desse o nome do poeta à rua dos Latoeiros, onde ele residiu.

No dia de Natal, o assunto era a continuação dos conflitos no Rio da Prata, a tomada de Paissandu e o aprisionamento, pelos paraguaios, do vapor Marquês de Olinda, da linha comercial do Alto Paraguai, no qual estava o presidente nomeado para a Província do Mato Grosso. Os passageiros foram declarados prisioneiros.

As crianças, alheias às tragédias do mundo adulto, distraíam-se durante os passeios que fazíamos pelos arredores, brincavam junto aos novos amigos da vizinhança e divertiam-se nas aulas de música em casa. Um comentário ali ou acolá as colocava a par de alguns fatos, mas a gravidade desses passava desapercebida. O zunzum se instalou; eram esperados os jornais da terça-feira, primeiro dia do ano de 1865.



[1] Não é viril voltar as costas ao destino.

[2] A Questão Christie foi um contencioso entre o Império Brasileiro e o Reino Unido, Inglaterra, que se estendeu de 1862 a 1865. A atuação do embaixador britânico no Brasil William Douglas Christie motivou o rompimento das relações diplomáticas por iniciativa do Brasil (1863). Em 1862, marinheiros ingleses bêbados e em trajes civis foram detidos no Rio de Janeiro quando faziam arruaça nas ruas, sendo depois liberados ao se constatar que eram militares. Neste clima tenso, Christie pediu pronta indenização pela carga do navio Prince of Wales, naufragado em 1861 na costa do Albardão (então Província do Rio Grande do Sul), bem como a demissão dos policiais brasileiros que tinham feito a detenção e um pedido formal de desculpas do Governo Imperial à Grã-Bretanha. No ano seguinte, a esquadra inglesa sob o comando do almirante Earen aprisionou cinco navios mercantes brasileiros. Houve protestos no Rio de Janeiro e a população ameaçava represálias contra propriedades inglesas. O Brasil pagou, sob protesto, o montante exigido pelos ingleses referentes ao naufrágio do navio no Sul, ao mesmo tempo em que encaminhou um pedido de indenização pela apreensão dos cinco navios brasileiros, e exigiu desculpas pela violação do território nacional. A resposta foi negativa e o Imperador D. Pedro II decidiu romper relações diplomáticas com a Grã-Bretanha em maio de 1863. Em arbitramento internacional, o rei da Bélgica deu parecer favorável ao Brasil. As relações diplomáticas foram restabelecidas após um pedido de desculpas formais do governo britânico, que enviou um representante ao Teatro de Guerra – a Guerra de Paraguai – para se encontrar com o Imperador D. Pedro II que visitava as tropas.

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